Mentes artificiais, consciência e outros delírios

De um tempo para cá, alguns cientistas perceberam que o modo mais fácil de fazer uma máquina que imite o cérebro dos animais é dando um cérebro de verdade às máquinas.

Há 4 anos cientistas começaram a analisar por exemplo o cérebro de uma barata e começaram a reduzir o cérebro dela na menor fração possível para interligar a eletrodos de modo que pudesse controlar um corpo artificial de barata. A intenção é dar ao cérebro natural de uma barata um corpo artificial para ver se ela consegue controlá-lo.

Em outro lugar cientistas imobilizaram uma mariposa e usaram seu sistema visual (olhos e cérebro) para rastrear e identificar movimentos. Sem um cérebro real o sistema precisaria muitos e muitos milhões gastos em pesquisas, hardware e software para fazer um feito similar.

Recentemente um feito ainda maior foi realizado, cultivando milhares de células neurais de ratos sob uma chapa  eletrônica, especializada em criar conexões com estes neurônios, outra equipe cientifica criou um cérebro artificial feito de células naturais para controlar um robô.

A pesquisa em cima de um sistema misto feito de células e máquina parece ser o caminho mais fácil para sistemas eletrônicos mais inteligentes.

Com isto o homem vai derrubar mais uma barreira do desconhecido, o cérebro.

Isso também me fez levantar várias questões:

Ser vivo ou não ser? Eis a questão!

Ninguém negará que uma barata, apesar de asquerosa, é um ser vivo. De acordo com o conceito formal para sser um “ser vivo”  ele precisa ter: Crescimento E Metabolismo E Movimento E Reprodução E Resposta a estímulos.

Vou ser sincero que nunca gostei muito dessa definição, eu acredito que um bom conceito seria de OUs e não Es. Mas usando esse conceito, que ao longo do tempo foi tremendamente custurado para se manter, temos então que uma mula (mulas não se reproduzem) ou um homem estéril um caso de não ser vivo. Isso foi remendado corrigido dizendo que para definir reprodução usa-se o indivíduo ou outro similar de sua espécie. Ou seja, uma mula é um ser vivo pois apesar de não se reproduzir seus pais se reproduziam, um homem estéril é um ser vivo pois seus pais e similares são seres vivos.

Usando esse remendo temos que um robô que usa um cérebro de inseto é vivo, pois apesar dele não se preproduzir outro robô pode ser construído para criar robôs-insetos. Aliás, porque não? Pode-se até reproduzir, se ele tiver a capacidade de montar outro robô idêntico (isso já foi feito) ele teria a capacidade de reprodução (que nem chega a ser obrigatória, visto o exemplo das mulas, formigas operárias e homens estéreis).

Seria então um robô um ser vivo? E por que não seria?

Se você tem uma pessoa com uma perna mecânica ela não deixa de estar viva, se ela tem um marca passo no peito também não. O que estamos falando é de dar um novo corpo a um cérebro velho (ou novo se ele foi cultivado em laboratório). Porque então esse corpo e cérebro deixaria de estar vivo?

É claro que o conceito de vida clássico é velho, arcaico e apesar das revisões eu acho ele fraco. A vida como conhecemos só é dessa forma pois aconteceu na Terra. Se houver vida extra terrestre ou se pudéssemos ver todos os seres que já foram extintos, novas exceções seriam demonstradas mostrando o quanto o conceito de vida tradicional é fraco. Aliás o vírus para mim sempre foi um ser vivo, apesar de ficar de fora do conceito tradicional.

Para mim eu considero algo bem mais simples, algo que responde a estímulos é vivo e pronto, simples assim. “Ah mas se for assim uma estrela é um ser vivo” – que seja, só não é o tipo de ser vivo que nos interessa. Acredito que ser vivo é muito vasto para ser definido com um conjunto muito grande de regras, principalmente sabendo-se que não conhecemos todos os seres vivos existentes. De modo que mais importante do que saber se algo é ou não vivo, é saber a que grupo de ser vivo esta coisa pertence.

Consciência

Com os estudos do Miguel Nicolelis onde ele conseguiu fazer uma macaca controlar um terceiro braço ficou claro algumas coisas: entre elas de que a mente nossa não conhece o corpo onde está. Quando nossa mente é gerada ela não tem conciência do corpo que a rodeia, ela não sabe o que é ambiente e o que faz parte de seu corpo. Aos poucos ela detecta os membros e consegue controlá-los através de constante aprendizagem. Algumas pessoas defeituosas que nascem com um membro a mais (um braço ou um dedo) aprende a controlá-los da mesma forma, pois nosso cérebro não é feito para nosso corpo. Ele aprende e usa o que tiver, se tivermos três braços, usaremos os três se nascermos com um, ele fará uso deste um.

Ou seja, se uma rede neural natural for cultivada e adicionada a uma máquina, ela tentará fazer uso desta máquina como seu corpo. Claro que para dar certo ela precisa de estímulos suficientes para isso.

Da mesma forma, se colocarmos uma rede neural acoplada em nossa cabeça, creio que nossa mente tentará fazer uso dessa arquitetura nova, colocando memórias, fazendo ligações neutrais que vão até ela e por fim essa parte da gente vai fazer tão parte quanto o restante do cérebro a ponto que se remover seria como remover parte de nosso cérebro natural.

Fico a imaginar então o que aconteceria se depois de anos fosse removido e implantado em outra pessoa. Se for uma pessoa saudável haveria transplante de memórias ? Memórias da primeira pessoa passaria para a segunda? Seria possível que a concsiência da pessoa iria para a segunda e se fundiria? Ou se colocado sobre uma mente morta, poderia se multiplicar a consciência? Poderia-se eliminar a morte? Fazer seres imortais, transplantando a consciência de um corpo para o outro?

São perguntas sem resposta, mas que se a ciência que cria interface cérebro X máquina continuar nesse rítimo um dia poderemos ter algumas das respostas. Por enquanto, fica a cargo da ficção.

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11 doses de saquê

Mateusnovembro 25th, 2008 at 14:14

Eu ainda acho pertinente (até que não haja explicação melhor) o enquadramento dos vírus fora da seleção de seres-vivos, até pelo seu processo morfológico. Faltam-lhe estruturas para que ele possa ser um ser vivo. Arvores são seres vivos? São, pois o conjunto de células que as formam são completas, no entanto, elas não se movimentam, não ostentam estímulos visíveis. O que faz um vírus responder a estímulos é apenas sensorial (cujo ele usa sem saber e apenas para identificar se pode ou não parasitar uma célula X). Claro, como eu disse: acho pertinente até que uma resposta melhor surja. No mais, admiro muito estes cientistas. Um dia gostaria de chegar neste patamar de conhecimento e de prática profissional.
Ah, excelente post. Parabéns e obrigado pela citação “virótica”. Estou longe de conseguir formar idéias tão complexas como essas tuas.

Abs

Edsonnovembro 25th, 2008 at 14:31

Vírus sempre foi e sempre será controvérsio, eu gosto muito deles para deixá-los apenas como máquinas naturais =)
Por outro lado as árvores tem movimento interno e respondem a estímulos (como a fotosíntese), portanto é sem dúvida um ser vivo mesmo na definição clássica (e sem precisar de remendos XD ).
Quanto a células, acho fraco o conceito de vida se basear em células até porque a bactéria é viva e tem uma única célula. E célula só existe pois teoricamente vivemos na terra e os seres são descendentes. Se fosse em outro ambiente os seres poderiam não ter células e sim outras estruturas moleculares e a definição mais uma vez teria que ser costurada.
Por isso até posso aceitar não colocar o vírus como ser vivo, mas isso me irrita menos do que considerar célula como elemento importante da vida visto que isso apenas é verdade se olharmos apenas para os exemplos visto em nosso mundo hoje.
Quanto a citação, eu não poderia deixar de citá-lo ^^
E muito obrigado pelos elogios =)

Mateusnovembro 25th, 2008 at 14:47

Eu gosto de trabalhar com coisas concretas. Por isso, até que se encontre algo concreto, não entra em minhas concepções algo que desconhecemos fora da terra. Mal sabemos lidar com o que temos aqui, quanto mais com algo que imaginamos que exista. Bactérias é um ser vivo, mesmo que seja composto APENAS de uma célula somente, mas tem TODAS as estruturas necessárias para sua manutenção, ao contrário dos vírus, que precisam OBRIGATÓRIAMENTE parasitar células para se manter (alguns virus morrem após parasitarem, ou seja, função de ser vivo? Nope).

Edsonnovembro 25th, 2008 at 14:53

É um modo de ver as coisas, aliás um ótimo modo. Você estuda o que vê e isso é bom, não desvia a atenção para o que não vê.
Por outro lado se Einstein se concentrasse apenas no que vê, a teoria da relatividade não teria sido criada e a lei que controla a atração dos objetos ainda seria a Lei da Gravidade, que apesar de funcionar, funciona apenas na terra.

Mateusnovembro 25th, 2008 at 15:09

Mas no caso da biologia nós conseguimos ver como funciona e simular ambientes hostis e também ver como funcionaria. Não acho que devemos descartar hipóteses, por exemplo, de como seriam as bactérias marcianas, como se comportariam e etc mas devemos primeiro entender como funciona nosso próprio organismo, em pról do nossa própria sobrevivência, que foi pela qual evoluímos. Os testes neurais, por exemplo, estão obtendo sucesso mediante quais experimentos? Daquilo que já se obteve resposta sobre o funcionamento do cérebro. Eu creio, apesar de não poder afirmar sobre isso, que Einstein pensou da seguinte forma: se aqui na terra funciona, vou testar de modo simulado para ver como funcionaria sem oxigênio. No caso da física, é plausível mas no campo biológico, “viajar” demais acaba deixando coisas mais importântes de lado.
Mas essa é minha simplória opinião, apesar de eu estar gostando desse papo (coisa que geralmente evito). :)

Edsonnovembro 25th, 2008 at 15:51

Na realidade acho que as duas formas de pensar são importantíssimas para a humanidade e para a ciência.

Tanto as pessoas que viajam na maionese e descobrem coisas invisíveis aos nossos olhos, quanto as pessoas que não sussegam enquantam não desmembram o que lhes cerca.

Mesmo na biologia, se não fosse por Louis Pasteur acreditar que existiam micro-organismos invisíveis no ar que azedavam o vinho, por muito tempo ainda se acreditaria em geração expontânea pelo princípio ativo. No final das contas ele acabou provando que apesar de invisíveis a olho nú as bactérias azedavam o vinho e eram provinientes do ar e inventou a pasteurização.

Ou seja, mesmo na bio é importante ambos os tipos de cientistas =)

Mateusnovembro 25th, 2008 at 16:19

Com essa do Pasteur, meus argumentos acabam hahahaha Verdade, isso é o princípio de todo cientista por excelência: a curiosidade. Sem isso, nada feito, nada se descobre.

Edsonnovembro 25th, 2008 at 18:29

Por outro lado ser “cético” também é bom, viajar de mais não é legal. Sem os cientistas que tentam derrubar teorias que se baseiam no “oculto” muitas falsas verdades ainda estariam valendo como teorias “plausíveis”. Pasteur também foi assim, se por um lado ele se agarrou no invisivel, por outro ele derrubou a teoria maluca que no ar tinha o princípio ativo invisivel que gerava criação expontânea.
É importante ter os dois tipos de cientistas, Pasteur era os dois ao mesmo tempo mas isso é para os gênios =D

Diegonovembro 25th, 2008 at 19:46

A graça da Biologia é que não é uma ciência exata, de definições imutáveis, exatamente por estudar um fenômeno muito complexo: a vida. Definir vida não é fácil, por mais que alguns seres sejam mais obviamente “vivos” do que outros.

Mas eu fico com o clássico: metabolismo, crescimento, reprodução (ou ser o resultado de uma reprodução biológica, no caso de seres estéreis), e responder a estímulos. Isso serve tanto para os organismos daqui da Terra quanto de qualquer outro lugar em que possa haver vida.

Você pode considerar os vírus como seres vivos quando fala sobre capacidade de evoluir ou responder a certos estímulos químicos, mas eu pessoalmente acharia mais justo se fossem considerados “quase-vivos” ^^ Apresentam algumas características dos seres vivos (que são muito mais complexos que um vírus, desde a bactéria procarionte mais simples), mas são inertes fora das células alheias.

E quanto a consciência artificial, isso é complicado. Justamente por envolver não só questões éticas para as quais temos respostas prontas, mas por envolver questões que ainda nem sabemos responder. Nossa consciência é o resultado de um cérebro desenhado para esse nosso corpo. Todos os estímulos orgânicos que recebemos contribuem para o desenvolvimento da nossa inteligência, e posteriormente da consciência de nós mesmos.

Mas essa nossa consciência ainda é guiada para objetivos incrustados em nosso passado irracional. Até mesmo nossas emoções. Ira, ciúmes, amor, ambição, desejos… Vivemos nossas vidas atrás de objetivos que queiramos ou não são o fruto de nosso lado irracional.

Como uma máquina reagiria tendo consciência? Que objetivos ela teria? Que perguntas faria a si mesma? Teria ela algum desejo, algum impulso, se fosse independente? Ela alcançaria um outro patamar de inteligência, que não estivesse preso a nossos códigos biológicos que tanto nos definem?

O que essa máquina definiria como moralmente correto? Poderíamos reprogramar uma inteligência livre e consciente de si mesma? E o mais importante: seria uma “vida”? Ou inteligência e consciência não são características que dependem da nossa definição de “vida”?

Aí poderíamos colocar a consciência e a inteligência em outro patamar, aonde seriam características independentes da existência ou não de um corpo vivo. O que faria com que os filósofos e sociólogos tivessem MUITO trabalho.

Edsonnovembro 25th, 2008 at 19:54

Muito legal seu comentario Diego.
É de fato daríamos muito trabalho aos filósofos e sociólogs ^^

Tchelonovembro 27th, 2008 at 12:03

Imagine a bagunça que seria uma mente antiga transplantada em um novo corpo. A “auto-imagem”, a maneira como nós nos imaginamos, ficaria totalmente bugada.

Adorei o post…me fez imaginar um futuro bizarro.

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